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Edição Estampa de 1985
Tradução de Aníbal Fernandes
Quem percorrer os limbos da Literatura e tirar a febre aos livros encalhados longe do favor dos manuais, terá por vezes a compensação de um sobressalto. O Farol de Amor é um grande sobressalto. No século XIX escrevia-se bem. Porque a leitura era a ocupação preferida de quase todos os que soubessem ler, vivia-se uma idade de ouro que activava, onde se acolhessem, os grandes talentos de contar.
O Farol de Amor é agora mal-esquecido depois de uma assinalável presença no favor do público, do registo de algum arrepio na inteligência da época. Laurent Tailhade, por exemplo, sucumbia numa carta à emoção: «Uma obra- -prima… que li de uma assentada, seduzido e apavorado ao mesmo tempo, um Farol de Amor que é obra-prima da literatura e do terror também.» Rachilde [Cros, 11 de Fevereiro de 1860 – Paris, 4 de Abril de 1953] – Marguerite Eymery em solteira, e Marguerite Valette depois de casada com o fundador da editora Mercure de France – se não teve talento que lhe garantisse, junto das sumidades literárias da época, uma memória vitalícia, mereceu do seu tempo um olhar rendido, ou de recusa, ou de reserva, mas nunca de indiferença.
A escritora Rachilde, agora um pouco esquecida, foi o contrário do insucesso público: somou num vasto percurso de edições uma admirável quantidade de best-sellers. O farol, símbolo fálico, e as águas, símbolo matricial feminino, passam em Rachilde por uma relação demente; e o que apreendemos como metáfora neste Farol de Amor resulta em grande parte de uma escolha nada inocente de palavras, de uma sugestão de cheiros e cores.