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Edição de 1923 das Oficinas da Empresa Diário de Notícias
Diogo Bernardes (c. 1530 a c. 1605), natural de Ponte da Barca, é uma figura central da poesia portuguesa do século XVI. Formado no ambiente cortesão da época, exerceu vários cargos nas cortes de D. Sebastião e de D. Filipe I, e foi incumbido pelo primeiro de cantar os seus projectados factos heróicos na expedição africana. Por isso, acompanhou-o a Alcácer Quibir, onde ficou prisioneiro e onde veio então a compor, ao contrário do previsto, lamentações elegíacas em recordação do desastre marroquino.
Esteve ligado ao círculo de Sá de Miranda e de António Ferreira, e manteve amizade com Luís de Camões, de quem foi contemporâneo e, em certa medida, rival na estima dos leitores.
Os seus temas típicos são um enamoramento espiritualizado com todo o recheio de paradoxos petraquistas ; uma saudade, ou seja, o gosto de uma nostalgia indefinida, na intimidade a sós com a espessura viridente do seu alto Minho rural, com as penedias e, principalmente, com o derivar das águas nascentes ou fluviais, que tanto evocam as lágrimas como o curso irreversível do tempo [sendo notáveis as suas éclogas inspiradas na beleza serena das margens do Lima, sem dúvida o seu rio privilegiado ("águas que de mistura/convosco minhas lágrimas levais")
Herdeiro da lição de Virgílio e de Sannazaro, Bernardes cultiva um Renascimento de tom doce, claro e melodioso, onde a natureza é espelho da alma e cada verso procura a medida exata da emoção. O resultado é uma das mais belas expressões da poesia bucólica em língua portuguesa, tão elegante na forma como íntima no sentimento.
Pastores e ninfas dialogam sobre amor, ausência, amizade e memória, numa linguagem de grande clareza e musicalidade. A obra revela um poeta atento ao modelo clássico e italiano, mas que o ajusta a uma sensibilidade própria e a um espaço reconhecível.
Autor também das Várias Rimas ao Bom Jesus e das Flores do Lima, Bernardes foi durante séculos um poeta muito lido, por vezes colocado a par de Camões. O Lima permite hoje redescobrir a sua voz mais característica: a de um poeta atento ao modelo clássico e italiano, mas profundamente ligado à terra de origem.