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Edição Cinemateca Portuguesa de 2007
Tradução de Gonçalo B. de Sousa
“Conheci Rainer Werner Fassbinder em 1969, no Festival de Cine Berlim, onde foi exibido o seu filme de estreia Liebe ist Kälter als der Tod. Vi-o pela última vez em Junho de 1982, três semanas antes da sua morte. Durante os treze anos de permeio, encontrámo-nos regularmente; em bares durante festivais de cinema ou enquanto ele trabalhava nos seus filmes e produções teatrais. Mantivemos uma espécie de amizade à distância que, em grande medida, decorreu sem as crises histéricas que minaram as relações pessoais íntimas de Fassbinder, mas também sem a intimidade que levava a maioria das pessoas a tolerar essas crises.
Se existe alguma verdade no velho provérbio que diz que o amor é cego, então não sou a pessoa indicada para escrever sobre Fassbinder, pois eu adorava-o. Mas não acredito que o amor seja cego. No seu poema “Ano de Ouro” (1834), o escritor dinamarquês N. F. S. Grundtvig afirma que aqueles cujo conhecimento provém de algo que não amaram, nunca viveram. O preconceito deriva da ideia que o amor é tanto um sintoma de carência como um remédio para essa mesma carência, e que a pessoa amada é idealizada devido à mera gratidão.
De qualquer forma, diz-se que o amor é um sentimento inadequado. Que pertence à esfera privada. Esta concepção de amor floresce numa sociedade baseada no princípio da obediência aos “mecanismos do mercado livre”. Contudo, qualquer pessoa que acredite na vida para além das forças de mercado tem o dever de acreditar que o amor não é um obstáculo à visão, mas que, pelo contrário, nos abre os olhos e nos traz uma perspectiva mais clara.”
O livro de Christian Braad Thomsen, que traduzimos à guisa de catálogo, acompanha as grandes etapas da vida de Fassbinder, sem escamotear os aspectos mais particulares desta vida, mas sem abordá-los de modo moralista ou escandaloso. E oferece-nos uma visão de conjunto desta obra, depois de a percorrer passo a passo.