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Edição Estampa de 1992
Tradução de Maria Isabel Barbudo
Redigida em francês entre 1891 e 1892, Salomé só viria a conhecer o palco em 1896, encenada por Lugné-Poe no parisiense Théâtre de l’Œuvre, a casa do teatro simbolista. Wilde justificou assim a opção pela língua francesa: "Só tenho um instrumento que sei que domino, que é a língua inglesa. Havia outro instrumento que eu tinha escutado a vida toda, e por uma vez quis tocar este novo instrumento e ver se conseguia fazer algo de belo com ele." Conseguiu-o, e a beleza andou sempre a par do escândalo. Em 1892, uma produção inglesa com a actriz Sarah Bernhardt no papel titular foi proibida.
Salomé baseia-se no episódio bíblico da decapitação de Iokanaan, nome hebreu de São João Baptista, narrativa atormentada pelo desejo e pela transgressão, assuntos recorrentes na obra do escritor irlandês. No prefácio que acompanha esta tradução, Joana Frazão diz-nos que há na peça "uma tensão entre visão e palavra, entre olhar e escutar, entre o que se faz com o corpo e o que se faz com as palavras". Não será esta a marca de água do teatro que importa?
Nesta obra dramática de Wilde a linguagem perseguiu o intuito de criar uma atmosfera sensual e sufocante, com um vocabulário caro à “decadência” estética do final do século XIX e que já surgia nalguns passos de Dorian Gray. Wilde espalha sangue, vinho e muitas cores, põe pratas a cintilar na lua, enfeita discursos com topázios, ónix, sardónicas e calcedónias, que lá se encontram quase sempre como sonoridades reduzidas à sua função de “palavra”, e não para as significações mais profundas que assumem, por exemplo, em Mallarmé ou Maeterlinck. A peça desenrola-se sob os raios de uma lua vista por cada personagem com olhar diferente, e que é reflexo dos seus próprios anseios. As personagens ouvem-se pouco umas às outras, dialogam entre si com os monólogos do seu isolamento carregado de uma nostalgia erótica que procura a beleza e teme a morte.»