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Edição Relógio d’Água de 2013
«E para nos dar esta Curitiba povoada por estes curitibanos tragicómicos, a um pelo do pícaro, Dalton Trevisan foi-se à eloquência e cravou-lhe a faca. Ironia, elipse, nenhuma cedência ao romantismo nem ao realismo mágico, aí estão outras armas brancas do escritor, afiadas à secretária-mesa-de-cela-monacal.»
Fernando Assis Pacheco, Prefácio a Cemitério de Elefantes, 1984
Em Dalton Trevisan, pode dizer-se, existe um certo faro para descrever situações do dia-a-dia da pequena classe média, urbana ou rural, cujas mãos suarentas, taras e eternas desventuras amorosas fazem o pano de fundo, o núcleo de onde dispara uma das mais originais narrativas curtas modernas.
Neste livro, o contista paranaense está de volta com seus vampiros, gordos, donzelas, velhos, mulheres desiludidas, já assumidos em sua obra. Nas falas nomeando impressões (arara bêbada, cadela molhada, rei da noite), lugares (Hotel Carioca), figuras (João, Maria, André), autoridades (o doutor, o sargento), preferências gastronômicas (moela, coração e sambiquira, broinha de fubá mimoso), devoções (Jesus Cristinho, irmão mariano) e o gosto pelos diminutivos (dedinho róseo, pezinho, boquinha de pintassilgo) reaparecem formas de apurar a ironia e intensificar o clima de humor e o grotesco da realidade. Numa de suas raras entrevistas, Trevisan manifestou certa vez o desejo de permanecer apenas contista e, se possível, reduzindo cada vez mais o tamanho de suas histórias até chegar à perfeição do haicai. Pelo visto, em A Trombeta do Anjo Vingador, sua intenção alcança também a continuidade dos temas. O tom desses 19 é recorrente, circular, corno se os unisse uma linha sequencial em relação aos livros anteriores.