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Doze Contos Peregrinos (1992, com a edição portuguesa da Dom Quixote a sair em 1993, na tradução de Miguel Serras Pereira) ocupa um lugar singular na obra de García Márquez: é o seu único livro de contos maduro, escrito já depois da consagração do Nobel (1982) e de obras como O Amor nos Tempos do Cólera (1985) e O General no seu Labirinto (1989). O próprio autor, no prólogo — um dos textos mais lúcidos que escreveu sobre o seu ofício —, conta a génese atormentada do volume: sessenta e quatro histórias projectadas ao longo de quase duas décadas, muitas perdidas, reescritas ou abandonadas, até restarem estas doze, decantadas e depuradas ao ponto da economia perfeita.
O fio que as une é anunciado no próprio título: a peregrinação, o desenraizamento. São histórias de latino-americanos exilados ou de passagem pela Europa — Genebra, Barcelona, Roma, Paris —, personagens suspensos entre a nostalgia da terra natal e a estranheza do lugar onde se encontram. Há o embaixador destituído que vende flores em Genebra, a avó que estrangula o próprio nieto no aeroporto de Barcelona, o homem que persegue durante cinco papados a canonização da filha morta, a prostituta que planeia meticulosamente o seu funeral. É um mosaico da solidão latino-americana na diáspora, mas também — e sobretudo — uma demonstração de virtuosismo técnico: cada conto é uma máquina de precisão narrativa, onde o realismo mágico, em vez de se expandir em saga (como em Cem Anos de Solidão), se comprime até à elipse e à sugestão.
Colocado no conjunto da obra, este livro marca um ponto de charneira. Depois da desmesura arquitectónica de Cem Anos de Solidão (1967) e da densidade quase barroca de O Outono do Patriarca (1975), García Márquez regressa aqui à forma breve que praticara na juventude (Os Funerais da Mamã Grande), mas com um domínio técnico que só a maturidade permite — a frase mais rarefeita, o efeito mais calculado, a distância irónica mais afiada. É também um livro que confirma a centralidade do exílio e da errância na sua cosmovisão, temas que atravessam toda a sua ficção, do Coronel que espera uma carta que nunca chega até ao Bolívar agónico de O General no seu Labirinto. Não é a obra pela qual García Márquez será primeiro lembrado, mas é indispensável para compreender a amplitude e a disciplina do seu génio narrativo — um livro de "peça de câmara" na obra de um autor conhecido, sobretudo, pelas sinfonias.
Doze Contos Peregrinos
Gabriel García Márquez
Dom Quixote
1993, 1ª edição
Preço: 25,00€ + portes. Oferta válida até 30Set2026. Pagamento: mbway, spin, iban.
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