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Edição Cotovia de 1996
Tradução, selecção e introdução de Manuel Gusmão
Edição bilingue português/francês
Um pão, uma ostra, um caracol, a chuva que cai sobre uma cidade. É disto que fala Francis Ponge, e é nisto que reside a estranheza radical da sua poesia. Nesta seleção bilingue, Manuel Gusmão reúne alguns dos textos mais emblemáticos de um dos poetas mais singulares da língua francesa do século XX, autor de um dos projectos literários mais rigorosos e mais livres do seu tempo: o de devolver às coisas o direito de serem olhadas antes de serem sentidas.
Ponge não descreve objectos para deles extrair emoções ou símbolos. Ao invés, entrega-se a cada coisa, por mais banal ou negligenciável que pareça, com a paciência de quem a vê pela primeira vez, deixando que seja ela, na sua matéria e na sua forma, a ditar as palavras que a hão de nomear. Desta aposta nasce uma escrita ao mesmo tempo precisa e lúdica, onde a exactidão quase científica da observação convive com o prazer irónico do jogo verbal, da etimologia e do trocadilho.
O resultado é uma poesia que reaprende a espantar-se com o mundo tal como ele é, e que, ao fazê-lo, também reaprende a linguagem que o nomeia.