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Edição Relógio d’Água de 2000
Tradução e notas de Margarida Vale de Gato
Há mais de um século e meio, Lewis Carroll ofereceu à literatura um dos seus mais subversivos exercícios de imaginação: um mundo onde a lógica é dissolvida e reconstruida segundo regras próprias, onde a linguagem se torna armadilha e brincadeira em simultâneo, e onde uma criança, Alice, é o único elemento de razão num universo que se recusa a ser razoável.
Em Alice no País das Maravilhas, uma queda por um buraco de coelho conduz Alice a um território povoado por criaturas que discursam com a seriedade de juízes e o disparate de bobos: uma Rainha de Copas tirânica, um Chapeleiro suspenso num chá perpétuo, um Gato que se desfaz em sorriso.
Em Através do Espelho, a viagem prossegue por um país organizado como um tabuleiro de xadrez, onde Alice avança casa a casa rumo a uma coroa, cruzando-se com duplos, paradoxos e personagens que tratam a contradição como princípio de conversação.
Sob a aparência de fábula infantil, esconde-se uma das mais agudas sátiras vitorianas ao poder, à etiqueta social e às convenções da razão e um exercício de lógica formal disfarçado de absurdo, escrito por um matemático que sabia exactamente o que estava a desmontar.
Carroll constrói um espelho duplo: por um lado, reflecte a infância e a sua lógica própria; por outro, distorce e expõe os disparates da própria racionalidade adulta.
Estas duas obras, lidas em conjunto, revelam-se menos uma fábula para crianças do que um jogo de linguagem para leitores adultos disposto a perder-se e a rir-se na fronteira entre o sentido e o nonsense.