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Edição Assírio & Alvim de 1998
Prefácio e notas de Manuel João Ramos, tradução Leonor Buescu
Edição bilingue português/latim
A enigmática figura do soberano indiano Presbiter Johannes apresenta nesta Carta pseudo-autográfica todo o esplendor do seu maravilhoso e inacessível império, cujas regiões orientais fazem fronteira com o próprio Paraíso terrestre.
Em grande medida elaborado sobre dois modelos literários, o Romance de Alexandre e o Apocalipse segundo S. João, este texto latino medieval revela aos seus leitores um imperador ideal e cristomimético: como o Cristo apocalíptico, o Preste João é um intemporal soberano e sacerdote, senhor dos senhores, que governa uma sociedade cristã a um tempo heterogénea e igualitária, onde as maravilhas de todo o tipo florescem entre o milagroso e o monstruoso, entre o quase divino e o quase diabólico.
O império do Preste João é imaginado como uma longa alegoria milenar preparatória da descida da Nova Jerusalém apocalíptica, em articulação com a cosmografia e a cartografia medievais europeias, segundo as quais a Ásia oriental era concebida como a região da ecúmena mais próxima da esfera celeste. O soberano indiano apresenta-se, por outro lado, como uma reformulação cristã do projecto imperial de Alexandre Magno.
A Carta do Preste João, onde se sugere que a unificação da cristandade oriental e ocidental ocorrerá através de uma aliança cruzadística para a conquista de Jerusalém, manifesta, portanto, um evidente fundo milenarista.
Parece ser originária dos meios clericais da corte imperial alemã, surgida num contexto de preparação das segundas cruzadas e de intensa rivalidade política entre os Hohenstaufen e a corte bizantina, por um lado, e o pontificado romano, por outro, rivalidades que encontram que encontram eco no tom crítico de certas passagens do texto.
O seu formato, sob o qual se organiza uma torrencial descrição de maravilhas exóticas orientais mimetiza, a um tempo, a literatura epistolar de características diplomáticas e a tradição das cartas caídas do céu, supostas mensagens divinas de tons apocalípticos e moralizadores.