Sê o primeiro a adicionar este livro aos favoritos!
Edição Livraria Paisagem de 1973
Crítica iluminista contundente à distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos, este texto de Ribeiro Sanches — médico e pensador português do século XVIII, ele próprio oriundo de uma família de cristãos-novos, figura central do Iluminismo luso e reformador das ideias sobre educação, saúde e administração — denuncia o mito da “pureza de sangue” como fonte de injustiça, atraso e decadência nacional. Com clareza e rigor, o autor mostra como a perseguição aos descendentes de judeus convertidos destruiu talentos, bloqueou o mérito e corroeu a vida social portuguesa. Propõe, em seu lugar, uma regeneração moral baseada na tolerância, na razão e na igualdade, fazendo desta obra um chamamento pioneiro à superação do preconceito e à modernização de Portugal.
“O opúsculo que segue toca o âmago desta tragédia nacional que dura - e a coincidência é de notar - desde que se anunciaram os sintomas de decomposição do império. Foi quando se manifestaram claramente os germes de afundamento do nosso domínio em Africa e na Asia que se procurou deles desviar as atenções do público, fazendo reverter todas as culpas e ódios consequentes sobre uma raça minoritária, bode expiatório de culpas que eram dela e mais ainda dos seus perseguidores. Em lugar de se procurarem os males e lhes dar remédio autêntico, enganava-se a população e exploravam-se-lhe as crenças e o fanatismo.
Faltaram ao país dirigentes que se sobrepusessem à vaga de ódios e malquerenças da ralé; esquecidos os chefes de que a sua missão é antes de orientação e muitas vezes de contradição, mostravam-se satisfeitos por os espectáculos dos Autos de Fé irem entretendo o público e por os bens dos presos irem tapando buracos no arrombado edifício do Tesouro. Pouco importava que se secassem fontes de riqueza e crédito desde que momentâneamente se conseguissem arrecadar uns milhares de cruzados.
Procurou-se esconder a fraqueza do país por detrás de uma perfeita unidade de crenças, quando a variedade das mesmas crenças não prejudicava em nada o vigor das nações onde se refugiavam os emigrantes de Portugal”
Raul Rego