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Edições Celta Editora de 1998 e 2001
Tradução de Miguel Serras Pereira
Dois volumes publicados entre 1998 e 2001, nos últimos anos de vida de Bourdieu, Contre-feux reúne intervenções públicas em que o sociólogo abandona a pose académica para entrar directamente no debate político. O alvo é o neoliberalismo: : não como política económica discutível, mas como ordem simbólica que se apresenta ao mundo com o rosto da inevitabilidade, tornando impensável qualquer alternativa. Contra essa naturalização, Bourdieu propõe o que o título anuncia, acender um fogo menor, controlado, capaz de privar o incêndio principal do combustível de que precisa para avançar.
O primeiro volume tem como subtítulo "Observações para Servir de Resistência Contra a Invasão Neoliberal". O alvo é o neoliberalismo enquanto utopia regressiva que se disfarça de evidência natural.
O argumento central: a precarização do trabalho não é um efeito colateral do capitalismo moderno, é um instrumento deliberado de dominação, porque um trabalhador inseguro é um trabalhador dócil. A televisão e o jornalismo entram como cúmplices involuntários, ao produzirem a doxa que impede qualquer pensamento crítico de circular.
O segundo volume, "Por um Movimento Social Europeu", reúne várias reflexões sobre a Europa, embora outros temas sejam também abordados. Mais breve, mais sóbrio, escrito pouco antes da sua morte. Bourdieu alarga o terreno: já não é só a França, é a Europa e a globalização. O projecto é um movimento social europeu capaz de opor ao capital transnacional uma resistência também transnacional. Propõe a figura do intelectuel collectif, não o profeta solitário, mas redes de investigadores que colocam o rigor científico ao serviço das lutas. O tom é mais elegíaco, quase testamentário: Bourdieu sabe que o tempo urge, e que a resistência ao capital transnacional exige uma solidariedade igualmente transnacional, um movimento social europeu construído não sobre a nostalgia do Estado-nação, mas sobre a reinvenção colectiva das suas promessas por cumprir.