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Edição Vendaval de 2006
Tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira
Um pensamento só tem sentido se tiver força de abrir novamente a indeterminação de um futuro. Mas esse futuro só pode proporcionar novos modos de vida se essas vidas constituírem novos modos de existência: a vida humana é uma existência.
Ora, a situação presente caracteriza-se pelo facto de essa ocorrência não se registar e de a criação necessária desses novos modos de existência ter sido substituída por um processo adaptivo de sobrevivência de onde desaparecem as próprias possibilidades de existir, rebaixadas para simples modalidades da subsistência em que se vende «tempo de cérebro humano». Foi o que chamei de miséria simbólica, que analiso aqui como proletarização generalizada.
O homem pode sem dúvida subsistir sem existir. Porém, creio que essa subsistência não é duradoura: ela torna-se rapidamente psíquica e socialmente insuportável porque conduz inexoravelmente à liquidação do narcisismo primordial. E por sua vez, essa liquidação conduz à liquidação da lei, isto é, daquilo que constitui a condição de um demos: a diferença entre o facto e direito. O modelo industrial caduco liquida assim o político e faz da democracia uma farsa da qual só podem surgir descrença e descrédito.