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Tradução de Álvaro Ribeiro
Edição Guimarães Editores de 1998
«Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades», defendia Camões, contemporâneo de Erasmo, mas a loucura reina imutável e suprema. Daí que este encómio da Loucura a si mesma tenha sobrevivido mais de 500 anos desde a sua primeira publicação, em 1511, e seja tão atual hoje quanto no dealbar do século XVI, ainda que os seus principais apaniguados já não usem batina — embora a usem também —, mas se apresentem em público de fato e gravata, ou já nem de gravata.
Neste elogio de si mesma, a Loucura apresenta-se sob a forma de uma mulher dirigindo-se a um auditório composto por toda a Humanidade, expondo ao ridículo os vícios e as manias da sociedade do período que corresponde à transição da Idade Média para o Renascimento.
Nenhuma classe, nenhum uso e nenhum maneirismo são poupados à crítica viperina da Loucura. Todas as baixezas são impiedosamente elencadas, para gáudio da sua mentora, a inultrapassável oradora deste discurso, a quem todos, de uma maneira ou de outra, prestam tributo e vassalagem.
Numa prosa tão rica quanto sarcástica, a Loucura celebra a juventude, o prazer e a embriaguez, ao mesmo tempo que critica as pretensões e fragilidades humanas, sobretudo as do clero, classe a que Erasmo pertencia, antepondo essa forma baixa de demência à elevada «loucura» da simples piedade cristã.