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Edição Vega de 1993
Tradução dr José Augusto Morão
Desde a República, de Platão, tornou-se claro que o estético - a poesia mas também a arte em geral - é um domínio bem problemático da cultura Ocidental. Seja por motivos políticos, éticos ou religiosos, o processo contra a poesia, no seu longo curso histórico, é alimentado por alguns textos decisivos, que alegam a seu favor ou contra ela.
Momento crucial deste processo é a famosa «inversão do platonismo» desejada por Nietzsche, que acabou por desempenhar um papel decisivo na contemporânea esteticização do mundo, de que Oscar Wilde é um caso exemplar.
A Função da Poesia, de Savonarola, datado de 1491, constitui mais uma peça deste processo contra a poesia. Longe de repetir o gesto de Platão, neste texto projectam-se as difíceis relações entre a teologia medieval e a dimensão poética do humanismo renascentista, permitindo pensar de outro modo as afecções da nossa modernidade.
Jerónimo Savonarola nasceu em Ferrara, em 1452, num meio marcado pelo humanismo, tendo entrado para a ordem dos Dominicanos. Mais do que a sua obra, extensa e multifacetada, o que impressionou foi a intensa acção que desenvolveu em Florença, em prol de uma profunda reforma política, moral e religiosa.
Inadaptada aos tempos, incompreendida pelos pequenos e inaceitável para os grandes, a acção de Savonarola é interrompida pela excomunhão papal, vindo a ser executado em 23 de Maio de 1498. O rigorismo de Savonarola vai reflectir-se na sua crítica da poesia, como se verá no livrinho A Função da Poesia (1491). Mas que é o profetismo senão uma palavra da poesia, que se desconhece como tal?
A tradução, bem como a apresentação e notas são de José Augusto Mourão, professor da Universidade Nova de Lisboa, ele próprio poeta de qualidade e profundo conhecedor da mística medieval.