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Edição de 1996 da Cinemateca Portuguesa
Textos de Frederico Lourenço
Duas expressões há que se vão repetindo de modo
previsível em todas as apreciações críticas relativas a Cukor, sejam elas oriundas da boca de cinéfilos a discutir descontraidamente cinema nos foyers das cinematecas, ou registadas tipograficamente em artigos de revista ou monografias sobre o realizador: women’s director e studio director. Tanto num caso como noutro, a intenção pejorativa é implícita, quando não evidente.
Todavia, mesmo para quem tenha como ponto de partida crítico a valorização da obra de Cukor. difícil é refutar tais etiquetas - talvez porque, muito simplesmente, correspondem à realidade daquilo que foi, da parte de Cukor, a metodologia, a sensibilidade e a opção de vida como realizador. David O. Selznick tentou vezes sem conta levar Vivien Leigh a reproduzir o desempenho arrepiante que dera a Cukor num dos primeiros testes a preto e branco de Gone With the Wind, na cena em que Scarlett tenta convencer Ashley a fugir com ela e deixar Tara; mas, embora Leigh trabalhasse o papel de Scarlett às escondidas em casa de Cukor, a ausência do cineasta no plateau impediu que ela conseguisse dar o mesmo a Victor Fleming. Garbo só terá sido uma grande actriz num único filme: Camille.
E poder-se-ia lembrar ainda os casos de Katharine Hepburn e Judy Holliday, actrizes cukorianas por excelência, que nunca igualaram com outros realizadores o sublime que Cukor as levou a atingir. De Tarnished Lady com Tallulah Bankhead a Rich and Famous com Jacqueline Bisset e Candice Bergen, nunca faltou a inspiração peculiar de penetrar com incomparável finura e sensibilidade nos recônditos da psique feminina. A célebre frase de Marguerite Yourcenar (“rien n’est plus secret qu’une existence féminine”) encontra no cinema de George Cukor uma notável limitação no seu escopo de aplicação; surpreender os segredos da existência feminina corresponde tão-só ao melhor mecanismo dramático de “desvendamento do real” (para citar uma expressão da derradeira ópera de Strauss, Capriccio Capriccio: “die Bühne enthüllt uns das Geheimnis der Wirklichkeit”).