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Edição Hiena de 1981
Tradução de António Moura
Sabemos como Rimbaud, poeta entre os 15 e os 19 anos, se silenciou subitamente no auge da vida, vagueou pelo mundo, se dedicou ao comércio e à exploração, rejeitou veementemente a fama que o atraía e morreu aos 37 anos após um trabalho imenso e infrutífero. A incoerência da vida de Rimbaud parece impressionante, particularmente entre estes dois períodos.
Sem dúvida, o poeta já havia demonstrado, através de digressões admiráveis pelos caminhos da mente, ser o precursor do incansável andarilho que mais tarde viria a prevalecer. Mas este último renegou o primeiro e proibiu-se de praticar a literatura. Qual dos dois era o verdadeiro? O que tinham em comum? Poderia alguém, com os negócios arruinados e a fortuna feita, esperar um florescimento, uma culminação ou uma renovação das suas faculdades criativas?
Em O Duplo Rimbaud, Victor Segalen (1878-1919), ele próprio um poeta-médico aventureiro, tenta, com uma cativante urgência pessoal, ligar Rimbaud, o poeta, e Rimbaud, o homem. Publicado originalmente em 1906, o ensaio adverte o leitor para não abordar a enigmática recolha tardia das Iluminações de Rimbaud na esperança de as compreender de forma racional.
A sua análise é muito própria da sua época, não conseguindo avaliar a dimensão completa dos poemas em prosa e caracterizando-os como visões do mundo fechado da infância do poeta. Também muito própria da época de Segalen é a terminologia da psicologia experimental que utiliza para explorar a ideia de um "duplo da moralidade", uma profunda e duradoura transformação que ocorreu na personalidade moral de Rimbaud.
Como observa Segalen, as cartas e os relatos geográficos de Rimbaud sobre África são, na sua grande maioria, documentos áridos. Nos estudos linguísticos, poderíamos utilizá-los como exemplos do modo funcional e informativo, e apresentar As Iluminações como modelos do modo expressivo extremo. Este contraste é, sem dúvida, consequência de uma escolha.
É um exemplo da formidável força de vontade que Paul Verlaine descreveu como a característica dominante de Rimbaud. Segalen interpreta isso quase como uma afronta pessoal.