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Edição Círculo de Leitores de 2003
Tradução de Ana Barradas
Muito se disse sobre as inimizades profundamente enraizadas dos Balcãs. A destruição recente da antiga Jugoslávia foi amplamente atribuída a ódios milenares, congelados pela Guerra Fria e libertados com a queda do comunismo.
Mazower defende que esta visão é uma fantasia perigosamente distorcida e para tal reconstrói o percurso histórico da região desde o domínio otomano até ao final do século XX, mostrando como a ideia de "Balcãs", enquanto categoria carregada de preconceito, sinónimo de atraso e barbárie, foi ela própria construída pelo olhar europeu ocidental.
O autor traça a desagregação do império otomano, a ascensão dos nacionalismos no século XIX, a criação dos Estados-nação modernos e as sucessivas tentativas de homogeneizar populações que, durante séculos, tinham convivido em mosaicos de religiões, línguas e identidades sobrepostas.
As guerras balcânicas, as limpezas étnicas, os deslocamentos forçados e os conflitos do século XX, culminando na desintegração da Jugoslávia, não são apresentados como erupções de um ódio primordial, mas como o resultado de processos políticos concretos: a lógica do Estado-nação moderno a impor-se sobre sociedades plurais.
De todos os legados que a modernidade trouxe à região, o mais nefasto foi pois a arma ideológica do nacionalismo romântico, usada repetidamente pelos sedentos de poder como um ácido que dissolveu séculos de coexistência pacífica.
Erudito e ao mesmo tempo acessível, o livro é tanto uma história da região como uma crítica às narrativas que a reduziram a estereótipo: um convite a pensar os Balcãs não como excepção europeia, mas como espelho de tensões e violências que também atravessaram o resto do continente.