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Edição 90º Editora de 2006
Tradução de Miguel Serras Pereira
Será que a pergunta ainda faz sentido para nós, que reconhecemos o desencantamento do mundo e a morte de Deus? Sim, sem dúvida, pois nada é mais característico das sociedades ocidentais desde o fim das grandes ideologias do que a sensação de vazio, o anseio por dar sentido à própria vida.
No cerne da actual desordem reside o silêncio das principais instituições quanto ao propósito da experiência humana. Preferem a gestão à ambição política; o silêncio das salas de estar às oito da noite ao clamor das ruas; e a glorificação da imediação e do consumo à imaginação.
Ora, esta ascensão do silêncio — o fim das perguntas a conduzir ao fim das respostas, e vice-versa — é precisamente o que os etnólogos tiveram oportunidade de observar na década de 1970, quando o estrondo do colonialismo se calou. É por isso que os antropólogos, talvez mais do que outros, têm algo a dizer-nos sobre as nossas ambivalências actuais, sobre os confortos pelos quais pagamos tão caro, mas também sobre os caminhos que podemos seguir para lhes escapar. E, em primeiro lugar, isto, como um aviso: a globalização esforça-se por destruir os objectivos enquanto finge alcançá-los. No entanto, nunca estivemos tão perto de realmente percebê-los pelo que são: incentivos à fraternidade, ao pensamento e ao conhecimento.
Marc Augé, nascido em 1935, é dos mais conceituados etnólogos e antropólogos franceses. Foi presidente da École des hautes études en sciences sociales e participou em diversas missões em África e na América Latina, tendo então cunhado conceitos fundamentais da sua disciplina. O mais célebre, no entanto, o conceito de «não-lugar», aplica-se sobretudo ao mundo ocidentalizado contemporâneo, referindo-se a lugares uniformizados e transitórios, como os quartos de hotéis ou os aeroportos.