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Edição Ática de 1993
Álvaro de Campos é o protagonista do "drama em gente" que, segundo Pessoa, o conjunto da obra heterónima constitui. Impossível compreendê-los sem entender as relações que os reúnem e opõem. E também que Campos é o "fingidor" não só das dores e emoções que Pessoa "deveras sente" mas também das que se "esqueceu de sentir", como ele próprio disse. Viveu em seu lugar a vida de que ele se absteve — por "incompetência", escreveu.
Catarticamente, encarnou a loucura e a homossexualidade cujo espetro perseguia Pessoa. E, como o seu criador, desdobrou-se em vários outros, sincrónica e diacronicamente, ao longo da sua vida. Morreram juntos.
A obra de Campos está no âmago das vanguardas históricas, da poesia lírica moderna e da obra pessoana, tomada em conjunto. A Álvaro de Campos estão atribuídas as grandes odes sensacionistas, alguns dos maiores poemas lírico-dramáticos da literatura portuguesa.
Paradoxalmente, Pessoa atribuiu aos heterónimos e semi-heterónimos as suas principais obras, dando a Campos a "Ode Triunfal", a "Tabacaria" e a hagiografia laica de Caeiro.
Campos escreveu ainda cartas e avisos incendiários, deu entrevistas e respondeu a inquéritos, e infiltrou-se na vida e na obra de Pessoa. É como se Álvaro de Campos tivesse surgido para cumprir um desígnio que Fernando Pessoa anunciara em 1915: "Portugal precisa dum indisciplinador."