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Edição de 2003 do Díário de Notícias
Tradução de João Gaspar Simôes
Escrito quando Pasternak tinha quarenta anos, Salvo Conduto intrigou muitos leitores quando apareceu, porque as suas impressões isoladas e nítidas e as suas justaposições pareciam negar a cronologia, mas pelo menos um crítico reconheceu-o como “a mais original das autobiografias, empregando uma nova técnica de grande importância.”
Não foi concebido como uma autobiografia, mas como um livro sobre Rilke: foi para falar do poeta que lhe revelou a poesia que Pasternak empreendeu aquilo que se tornou uma “sequência de fragmentos autobiográficos sobre a forma como se formou a sua concepção de arte”
Não importa assim que tenha usado factos da sua própria vida em vez dos de Rilke: a experiência sobre a qual quer falar é a experiência partilhada. É também por esse motivo que Salvo Conduto poderá, pelo caminho, mudar de herói sem mudar de assunto.
As duas primeiras partes foram escritas (e a primeira já tinha surgido) quando, a 14 de abril de 1930, Maiakovski se suicidou. A terceira e última parte ser-lhe-á inteiramente dedicada. Uma homenagem de admiração ao homem que Pasternak considera o primeiro poeta da sua geração, é ao mesmo tempo um retrato físico e psicológico de extraordinário relevo e penetração.
Mas, por mais concreto que seja, não se trata apenas de um retrato individual: num capítulo que evoca “o último ano do poeta”, a biografia de Maiakovski funde-se com a de Púchkin, falecido num duelo quase um século antes; no capítulo seguinte, o último amor do poeta é contado como uma fábula impessoal e anónima. Ele não passa agora de uma personagem simbólica, o herói de uma lenda eterna.