Sê o primeiro a adicionar este livro aos favoritos!
Edição Campo das Letras de 2007
Tradução de Pedro Marques
Há autores que podem mudar a realidade. Sarah Kane era um desses autores. O confronto com o implacável criava as suas peças. Sarah Kane tinha de enfrentar o implacável. Só podemos retardar o confronto se estivermos certos de que ele ocorrerá num dado momento. Senão ele esquivar-se-á.
Tudo o que Sarah Kane fazia tinha autoridade. Se pensava que o confronto talvez não pudesse ocorrer no nosso teatro - porque está a perder a sua função de compreensão e os seus meios - não podia correr o risco de esperar. Em vez disso, representou-o noutro lugar. Os meios de enfrentar o implacável são a morte, a casa de banho e os atacadores de sapatos. São eles o comentário que ela tinha a fazer sobre a perda de sentido do nosso teatro, das nossas vidas e dos nossos falsos deuses.
Sarah Kane (1971-1999) ficou conhecida pelas suas peças que abordam temas como o amor redentor, o desejo sexual, a dor, a tortura — tanto física como psicológica — e a morte. As suas obras caracterizam-se por uma intensidade poética, linguagem concisa, exploração da forma teatral e, nos seus primeiros trabalhos, pelo recurso a acções cénicas extremas e violentas.
A própria Kane e estudiosos da sua obra, identificaram algumas das suas inspirações no teatro expressionista e na tragédia da época jacobina. O crítico Aleks Sierz considerou o seu trabalho como parte de um estilo e sensibilidade teatral confrontante, denominado "teatro in-yer-face". Sierz chamou originalmente a Kane "a escritora provocadora por excelência dos anos 1990, mas mais tarde observou em 2009 que, embora inicialmente "pensasse que ela era demasiado típica da nova escrita de meados dos anos 1990", "quanto mais nos afastamos dela no tempo, mais atípica ela parece ser".