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A Revolução de 1383, publicado originalmente em 1965 por António Borges Coelho, é um clássico moderno da historiografia portuguesa que reinterpreta a crise dinástica de 1383–1385 sob uma perspectiva marcadamente social, económica e de luta de classes.
1. A Tese Central: A Primeira Revolução Burguesa
Ao contrário da visão tradicional da História, que reduzia os acontecimentos de 1383 a uma mera disputa sucessória pelo trono ou a uma explosão de patriotismo contra Castela, Borges Coelho defende que o movimento foi a primeira revolução burguesa nacional triunfante. Trata-se do confronto decisivo entre a burguesia mercantil (em ascensão) e a nobreza feudal (em declínio) pelo controlo do aparelho de Estado.
2. A Composição da Frente Revolucionária
O autor demonstra que a revolução uniu uma larga frente social estruturada em torno da organização política dos concelhos. Esta aliança incluiu:
- Os "Ventres ao Sol": O povo miúdo, os artesãos, os camponeses e os trabalhadores assalariados urbanos (apelidados assim por não possuírem armaduras para proteger o corpo), que funcionaram como a força de choque mais radical e violenta do processo.
- A Burguesia: Não apenas os habitantes locais dos burgos, mas a elite detentora de capitais, mercadores e alugadores de força de trabalho agrária e manufactureira.
- A Pequena Nobreza e o Baixo Clero: Elementos dissidentes que se alinharam com a causa da independência por sobrevivência política e económica.
3. As Causas Profundas e a Crise Feudal
A obra analisa a morte de D. Fernando I e a ameaça de integração de Portugal na Coroa de Castela (através do casamento de D. Beatriz) como o rastilho, e não a causa. A verdadeira génese estava no sufoco que as estruturas feudais impunham à produção agrícola mercantil e ao comércio marítimo. A revolução serviu para quebrar estas cadeias servis, abrindo as portas da governação às novas forças sociais.
4. A Reabilitação de Fernão Lopes
António Borges Coelho faz uma apaixonada defesa do cronista medieval Fernão Lopes. O autor argumenta que as crónicas contemporâneas não eram meros relatos monárquicos, mas sim o testemunho vivo de um processo revolucionário radical, onde o povo foi o verdadeiro protagonista da mudança e o motor da aclamação do Mestre de Avis (futuro D. João I).
5. O Impacto Histórico
A vitória na crise transformou o Estado num aparelho nacional virado para a expansão marítima e para a colonização capitalista. A própria guerra deixou de ser uma actividade meramente cavaleiresca e senhorial para passar a responder a uma estratégia comandada pelo mercado global e pelas necessidades comerciais da burguesia.
Capa de Rogério Ribeiro
Portes Grátis para Portugal*
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