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. Se foi a poesia que primeiro o afirmou, a sua biografia transformou-o num autor plurifacetado, em que a arte poética deu origem, depois, ao ensaio e ao romance -- tudo bem revelador da densidade interior que era o mundo literário de José Rogério Mineiro Carrola. Basta referenciar a sua bibliografia para percebermos isso: Quando a Memória Dói (1972), Inverno/ poesia (75), Poema para Camus (83), A Oração de Filipa (98), O Caminho de Tales (2002), Um Olhar no Joe's bar (2004), A Oração Completa de Filipa Moniz na Ilha de Porto Santo (2005), Representações na relação pedagógica (2005), A Beleza da Tua Alma Faz-me Tremer (2007).
No seu processo criativo ele projectava a sua inquietação de vida. Fui lá encontrar, ainda, o velho José Rogério Carrola, com o seu olhar sagaz, a cintilante inteligência com que ele lavrava as palavras e olhava por dentro das coisas, com aquele seu despojamento que fazia lembrar os fazedores da sua terra, operários que faziam das mãos e do espírito um processo inseparável, e ele, Rogério Carrola a dizer-nos que o pensamento é a raiz de tudo e o conhecimento a grande aventura do homem. O Zé Rogério Carrola foi sempre um homem livre. E um escritor que não era capaz de enredar-se no facilitismo, mesmo quando a memória doesse, como mostraram os seus versos.. E essa foi a marca do seu estilo.
Quando lhe aceno um comovido adeus, que é o que acontece quando parte um amigo, envolvo esse adeus nos versos de um seu poema, que intitulou A Luz:
"Áspero é agora o voo da luz
marcando Outubro pela implosão da cor
que cai, devagar e fria, das grandes árvores.
O pensamento está quieto. Apoia-se
numa janela de desamor ainda não
totalmente fria,
que o calor das cortinas compõe,
com suas cores quentes,
um cantinho de mão junto ao bafo da boca.
O que mais se agita é a memória
que apaga e ilumina, em grito,
e ao sabor dos olhos,
o que estes contemplam
de fora para dentro e, de dentro,
para a nostalgia do infinito.
capa mole - 43 (v) págs