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Prefácio de Carlos Santos Pereira.
A obra retrata o ambiente de tensão, o terror e os acontecimentos vividos em Timor-Leste durante a missão da ONU (UNAMET) e o referendo pela independência em 1999.
Todo o terror que aconteceu em Timor, antes e depois da votação, antes e depois do anúncio do resultado da consulta popular, foi minuciosamente preparado. Maquiavelicamente estudado. Diabolicamente concebido. O que dói, o que mais amargura, é o facto de a Unamet ter tido formalmente conhecimento prévio e atempado de todos os passos que a Indonésia preparou e concretizou em Timor-Leste. Algumas informações chegaram à sede da Unamet com meses de antecedência… Exceptuando a destruição das pontes e da rede eléctrica, tudo foi previsto e concretizado ao pormenor. As pontes e a electricidade foram salvas apenas porque a Interfet entrou no território antes do tempo calculado pelos militares indonésios. Nunca acreditaram que a mobilização e entrada da Interfet em Timor-Leste fosse tão rápida e sempre tiveram fortes motivos para continuar esperançados nos bons ofícios que a protecção americana prometia e havia alguns anos vinha cumprindo. Mantive esta convicção de forma instintiva até que, em meados de Outubro, algumas destas suspeitas me foram pessoalmente confirmadas pelo coronel indonésio Bwono- um homem da nova imagem do exército indonésio e alegadamente fiel a uma corrente oposta à do general Wiranto.
Não sei em pormenor quem dirigiu as operações de Setembro. Sei quem as comandou desde o princípio, porque nenhum exército anda à solta, a cometer barbáries sem conhecimento das hierarquias. E sei que, para além das hierarquias, muitos militares indonésios destruíram violaram e mataram, por puro prazer. Sei que muitos dos militares indonésios que estavam em Timor eram seres cuspíveis. Vomitáveis. Se alguma vez me senti racista foi em Timor. Detestei o cinismo dos indonésios. De dia sorriam para as pessoas e depois, pela calada da noite, liquidavam-nas. Bastantes vezes, muitos timorenses foram espancados ou morreram só porque trabalhavam para a Unamet ou para os portugueses.
Hugin, 2000.
2.ª edição
ISBN: 972-8534-55-8
Capa mole, ilustrado, 132 páginas.
"Os Dias da UNAMET - Crónicas de uma Reportagem em Timor", por Hernâni Carvalho.