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BALADA DA PRAIA DOS CÃES .
José Cardoso Pires
Edição: Círculo de Leitores
ISBN:972747005X
Páginas: 236
Dimensões: 215x130 mm
Capa dura
Peso: 314
TX-A026-G334-1.09PR
Exemplar como novo
PREÇO: 6.00€
Acresce portes – Correio Editorial
Um Retrato Psicológico sob a Sombra da Ditadura
Vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE) em 1982, Balada da Praia dos Cães é uma das obras máximas de José Cardoso Pires e um marco incontornável da literatura portuguesa do século XX. Partindo de um crime real ocorrido na década de 1960 — o assassinato de um militar dissidente —, o autor transcende as fronteiras do romance policial clássico para nos entregar uma dissecação magistral e claustrofóbica da sociedade portuguesa durante a ditadura do Estado Novo.
O Ponto de Partida: O Cadáver na Praia
A narrativa arranca com uma descoberta macabra: o corpo de um homem, em avançado estado de decomposição e com evidentes sinais de violência, é encontrado na Praia do Mastro (popularmente conhecida como a Praia dos Cães), a norte de Lisboa. A vítima é o Major Luís Dantas Castro, um militar procurado pelas autoridades por conspiração contra o regime de Salazar e que se encontrava a monte, na clandestinidade.
O encargo de investigar o homicídio recai sobre o Chefe de Brigada Elias Santana, um inspetor da Polícia Judiciária. Metódico, solitário, implacável e com uma memória fotográfica assombrosa, Elias é a figura através da qual o leitor entra no labirinto psicológico que levou ao crime.
O Cativeiro Voluntário e a Degradação Moral
Através de interrogatórios, relatórios policiais e reconstituições mentais do inspetor Elias, a história do Major Dantas Castro vai sendo revelada. Descobrimos que o militar vivia escondido numa vivenda isolada, acompanhado por três pessoas: a sua jovem amante, Mena, e dois subalternos cúmplices na oposição ao regime, o arquiteto Fontenova e o cabo Barroca.
O que Cardoso Pires nos oferece não é a caça ao assassino — cedo percebemos quem são os responsáveis —, mas sim o estudo da degradação de um pequeno grupo isolado do mundo. A casa clandestina transforma-se num microcosmo do próprio país sob ditadura: respira-se paranoia, medo, submissão e loucura. O Major, outrora um líder carismático e heróico, revela-se no confinamento uma figura autoritária, sádica e destrutiva, exercendo um poder tirânico sobre os seus companheiros, especialmente sobre Mena. A tensão insuportável deste confinamento culmina, inevitavelmente, no assassinato do próprio líder pelos seus aliados.
O Duelo Psicológico: Elias e Mena
Um dos pontos mais altos do romance é o confronto intelectual e psicológico entre o inspetor Elias Santana e Mena, a peça central para desvendar as dinâmicas de terror dentro da vivenda. Elias, apelidado frequentemente de "cão" farejador da polícia, tenta invadir e dissecar a mente de Mena, procurando não apenas confissões, mas a verdade oculta por trás da submissão e do desespero. Através destes diálogos tensos, Cardoso Pires expõe a complexidade da culpa, o instinto de sobrevivência e a condição da mulher numa sociedade patriarcal e repressiva.
O Estilo e a Atmosfera
A genialidade de José Cardoso Pires reflete-se na sua prosa concisa, irónica e cirúrgica. A estrutura da narrativa não é linear; é montada como um puzzle processual, misturando a frieza dos relatórios oficiais (os autos de polícia) com os fluxos de consciência e as descrições sombrias da paisagem e do ambiente. A névoa, a chuva, as noites escuras e os cães vadios que dão título à obra funcionam como metáforas do clima de desconfiança e da opressão generalizada que asfixiava Portugal na época.
Conclusão
Balada da Praia dos Cães é muito mais do que a resolução de um mistério criminal. É uma obra de profunda análise sociológica e humana, que investiga a anatomia do medo, a corrupção provocada pelo poder (mesmo quando exercido contra uma ditadura) e o preço devastador do isolamento. José Cardoso Pires entrega-nos um texto tenso, brilhantemente construído, que prende o leitor do primeiro ao último auto de interrogatório, consolidando-se como um clássico intemporal sobre a natureza sinistra das prisões — sejam elas políticas, físicas ou psicológicas.