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CINCO CONVERSAS COM ÁLVARO CUNHAL –
Catarina Pires
Edição: Campo das Letras
1ª Edição – 1999
ISBN: 9726101778
Páginas: 307
Dimensões: 210x140 mm
Peso: 341
TX- A026-G371-1.20PR
Exemplar em excelente estado de conservação
PREÇO: 9.00€
Acresce portes- Correio Editorial
Estas conversas são um documento, o registo e testemunho, como escrevi na explicação que dei na altura, da reflexão conjunta de duas pessoas diferentes sobre a vida, a história, o comunismo, o mundo, o país, a política, a arte, os sentimentos. Uma delas tinha 85 anos, sabia muitas coisas, tinha muitas esperanças e acreditava num mundo melhor; a outra tinha 24, queria saber muitas coisas, queria ter muitas esperanças e queria acreditar num mundo melhor. Consegui-lo nem sempre é fácil, mas a luta continua.
Resumo Alargado e Análise Crítica para Publicação
1. Enquadramento e Proposta Editorial
Publicado originalmente em abril de 1999 pela prestigiada e já extinta editora Campo das Letras, "Cinco Conversas com Álvaro Cunhal", da autoria da jornalista Catarina Pires, configura-se como um dos documentos biográficos e jornalísticos mais singulares e intimistas sobre a maior figura do comunismo português do século XX.
A génese da obra assenta num contraste demográfico, geracional e experiencial profundo: de um lado, Álvaro Cunhal, então com 85 anos, detentor de uma bagagem histórica monumental marcada pela clandestinidade, a prisão política, o exílio e a liderança do Partido Comunista Português (PCP); do outro, Catarina Pires, uma jovem jornalista de 24 anos, impulsionada pelo desejo de compreender as engrenagens intelectuais, éticas e utópicas de um homem habitualmente blindado pela matriz oficial da sua força política.
Ao longo de cerca de dezoito horas de gravações descontraídas — frequentemente decorridas no balcão do bar da sede do PCP —, desfez-se a tradicional rigidez das conferências de imprensa para dar lugar a uma reflexão fluida sobre a vida, a história, a geopolítica, os sentimentos, a arte e a perenidade do ideal comunista.
2. O Sentido Estrutural do Diálogo: O Confronto de Gerações
O livro distancia-se de forma absoluta das biografias convencionais ou dos ensaios de hagiografia política. Como a própria autora salienta no prefácio que acompanhou a obra, este volume regista o encontro de duas mundividências separadas por mais de meio século, mas unidas pela recusa do cinismo contemporâneo:
> "Estas conversas são um documento, o registo e testemunho da reflexão conjunta de duas pessoas diferentes sobre a vida, a história, o comunismo, o mundo, o país, a política, a arte, os sentimentos. Uma delas tinha 85 anos, sabia muitas coisas, tinha muitas esperanças e acreditava num mundo melhor; a outra tinha 24, queria saber muitas coisas, queria ter muitas esperanças e queria acreditar num mundo melhor. Consegui-lo nem sempre é fácil, mas a luta continua."
> — Catarina Pires
Esta dinâmica confere à narrativa um ritmo acessível e despido de dogmatismos. Cunhal abdica conscientemente do tom professoral e do que a crítica adversária costumava apelidar de "a cassete", permitindo que as perguntas livres e por vezes provocatórias de Catarina Pires penetrassem nas franjas da sua mundividência humanista, estética e filosófica.
3. Eixos Temáticos Fundamentais das Cinco Conversas
A. O Humanismo Clandestino e a Rejeição do Culto da Personalidade
Um dos traços mais marcantes evidenciados ao longo das conversas é a aversão visceral de Álvaro Cunhal ao endeusamento político e à espetacularização da sua vida privada. Ao contrário de outras figuras históricas que aproveitaram o ocaso da vida para cimentar legados pessoais através de memórias egocêntricas, Cunhal defende que a sua biografia individual dilui-se no coletivo do partido e da classe trabalhadora. Ele rejeita veementemente o conceito de "aura misteriosa", justificando o secretismo que envolveu a sua vida pessoal não como um artifício de charme político, mas como uma estrita herança ética dos tempos da resistência antifascista.
B. Prática Política vs. Dogma Religioso
Questionado sobre a natureza quase "fértil" ou "religiosa" da militância comunista — uma crítica comum num Portugal de forte tradição católica —, Cunhal estabelece uma demarcação filosófica radical:
> "Os comunistas não têm uma concepção ideológica separada de uma intervenção prática. Ao contrário da religião, não aceitamos o conformismo e a resignação. Não estamos a lutar por uma concepção; estamos com uma concepção, a lutar pela solução de problemas concretos da humanidade e por uma transformação da sociedade que os resolva."
Esta definição reposiciona o pensamento cunhalista no campo do materialismo dialético mais puro, porém fortemente humanizado pela urgência da solidariedade e da resposta direta às assimetrias sociais.
C. A Arte, a Criação e a Identidade de Manuel Tiago
As conversas mergulham de forma fascinante na vertente criativa de Cunhal. Sendo já pública na altura a sua identidade enquanto Manuel Tiago — o pseudónimo literário sob o qual escreveu romances de forte pendor neorrealista como "Até Amanhã, Camaradas" ou "Cinco Dias, Cinco Noites" —, o líder histórico aborda a criação artística não como um mero apêndice ou ferramenta de propaganda, mas como uma necessidade vital de expressão humana. A pintura, o desenho e a literatura surgem nestes diálogos como janelas de liberdade interior e resistência mental, sobretudo durante os longos anos de isolamento carcerário na Fortaleza de Peniche.
D. Os Sentimentos, o Amor e a Relação com o Tempo
Se a frente política de Cunhal era granítica, no diálogo com Catarina Pires emergem reflexões de enorme sensibilidade sobre os afetos. O amor, a amizade e a lealdade são descritos como os verdadeiros motores da transformação social. Cunhal revela-se um homem atento às micro-relações humanas, desmontando a imagem fria do burocrata estalinista que o Ocidente tantas vezes projetou. Há uma aceitação serena da velhice e da finitude, mitigada por uma confiança inabalável nas novas gerações — representadas, naquele preciso momento, pela própria entrevistadora.
4. Impacto Crítico e Relevância Contemporânea
A publicação de "Cinco Conversas com Álvaro Cunhal" em 1999 foi recebida com grande entusiasmo tanto pela crítica literária como pelos analistas políticos. Numa época em que o colapso da União Soviética ainda ecoava de forma recente e as teses do "Fim da História" de Francis Fukuyama dominavam o debate público, o livro humanizou o "histórico" comunista sem desidratar a sua firmeza ideológica.
A nível estilístico, a obra é amplamente elogiada pelo tom direto, intimista e pela ausência de floreados retóricos. Catarina Pires demonstrou uma maturidade invulgar ao conseguir que o entrevistado se desarmasse perante a frescura das suas interrogações, transformando o livro num documento histórico insubstituível. Décadas após a sua primeira edição, a obra permanece um ponto de referência obrigatório para compreender não apenas o político Álvaro Cunhal, mas o pensador, o artista e o homem por trás do mito.