O CÃO ANDALUZ

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O CÃO ANDALUZ
Autor(a)
Jorge Seabra
Editora
Calendário de Letras
Género Literário
Romance
Sinopse

O CÃO ANDALUZ  de Jorge Seabra

O CÃO ANDALUZ

de Jorge Seabra 

ISBN: 9789728985035

Edição ou reimpressão: 03-2007

Editor: Calendário de Letras

Idioma: Português

Dimensões: 164 x 238 x 22 mm

Encadernação: Capa mole

Classificação Temática: Literatura > Romance

 

EXEMPLAR COMO NOVO, SEM MARCAS  DE MANUSEAMENTO.

 

PREÇO: 12.00€

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CRÍTICA

Cão Andaluz

Por Maria Manuela Cruzeiro

ppresente.wordpress com/textos/cao-andaluz/

 

Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos.
Marguerite Yourcenar

Cão AndaluzO Cão Andaluz, título estranho, roubado à dupla sagrada do surrealismo Buñuel/Dali, é, como os dois anteriores livros de Jorge Seabra, um regresso ao passado com constantes projecções no presente. Uma viagem em voo rasante, com altos e baixos, avanços e recuos, em que a proximidade do olhar se paga com a dúvida e a suspeita, por vezes a surpresa e o desconcerto, de ver o que se não tinha visto, sem que isso resolva nada do que ficou por resolver.

O passado, pois – continuando no domínio da navegação aérea – como uma espécie de caixa negra da memória, o centro de todos os centros, enigma ou oráculo cujas falas, sendo as mesmas, são sempre diferentes, porque diferentes são as perguntas que o tempo lhe vai fazendo.

As primeiras páginas do livro advertem-nos quanto ao grau de perigosidade e também de ambiguidade desse desafio. Os gestos, os rostos e as histórias que a memória resgata do esquecimento, trazem o calor de um olhar íntimo e solidário, mas também o verde frio da angústia e da dúvida insidiosa: «um verde-escuro de abismo, verde-sombra das árvores na tempestade, verde-verme de podridão» (p.11). Uma radical suspeita ameaça, pois, todas as nossas convicções, actos ou juízos porque «na vida há curvas e cotovelos que fazem parecer ser o que nunca fora, uma realidade que constantemente se ilude» (p.184).

Por isso, muito do que guardamos do passado são apenas as várias camadas, por vezes ratoeiras, de que a memória se serve para nos desviar do essencial, do que resta após o esvaziar de todas as caixas de papelão em que ela é arquivada: «Toda uma história. Ou todo o amor. Ou toda a verdade. Ou toda a traição. O que se quiser escolher.» (p.15)

E quem o pode fazer? Os próprios actores envolvidos na trama de acontecimentos narrados, fatalmente reféns da sua própria versão? Fatalmente subjectiva e parcelar? Ou alguém exterior ao labirinto em que a vida os enredou, uma espécie de narrador omnisciente?

Entre uma e outra, aparece-nos uma alternativa, tão ao gosto de Jorge Seabra: o inspector policial. Mas um inspector diferente: Júlio Reis, assim se chama, andara por Coimbra naqueles anos de brasa de 60-70, fizera a guerra colonial, que lhe causara um efeito de «abcesso de fixação, um termo da medicina antiga que designava o processo de criar uma infecção limitada, de forma a aumentar as defesas para resolver outra mais grave» (p.59). De lá trouxe uma sede de justiça e um sentimento misto de compreensão e revolta. Além disso, «lera Simenon e Freeling com gosto, apreciando também o inspector Jaime Ramos do Francisco Viegas» (p.57). Mas não era isso, ou não era sobretudo isso, que o tornava tão especial, pelo menos para os seus colaboradores: «A razão residiria nos olhos (…). Uns olhos sinceros, humanos, olhos de auxílio. Porque não seria nenhuma técnica que aprendessem na formação, ou só com a experiência, embora o inspector também a utilizasse. Talvez fosse porque não lhes mentia, e eles deviam perceber essa honestidade, essa espécie de afecto que os queria perceber, que queria fazer o que pudesse para consertar o erro» (p.36).

Um inspector que queria perceber os outros, porque se queria perceber a si mesmo. Que, por entre casos de polícia banais, como assaltos a bombas de gasolina, se confronta com um crime nada banal, não pela sua especial violência (que essa é quase normal) mas pelo que introduz de anormalidade na sua vida normal e na do seu círculo de amigos.

Um crime? Ou um acidente? É justamente em torno dessa dúvida vital que toda a narrativa avança, de par com a intriga policial. Um eficaz expediente do autor, já testado com êxito nos dois livros anteriores. Por entre reflexões sobre o quotidiano, sobre as relações humanas, feitas de pequenos prazeres secretos ou partilhados (a gastronomia à cabeça), de pequenas conquistas ou perdas, de amores mais ou menos felizes, dos vários tons da alegria, como da tristeza, da carência, ou do abandono, as personagens crescem e quase insensivelmente vêm-se num frente a frente consigo mesmas, com o presente e o passado. Uma espécie de jogo de espelhos, ou de jogo de verdade ou consequência, de altíssimo risco. E nesta fase, neste patamar de exigência, de que necessita antes de mais o investigador para sobreviver e o escritor para o ser, se joga o destino de ambos, e se confirma, em minha opinião, o lugar do Jorge Seabra como romancista, e não apenas como um talentoso contador de histórias.

O inspector Júlio Reis é pois, quanto a mim, o seu alter-ego literário. Não será por acaso que essa personagem está presente nos seus três livros, e nos dois anteriores, até com o mesmíssimo nome: Júlio de Matos. Aqui é também Júlio, mas Reis: Júlio Reis, irmão-gémeo ou pelo menos parente muito próximo de Júlio de Matos. Na verdade, é através dos seus olhos que a realidade é captada e dissecada até ao absurdo. Perícia do investigador, que progride colado a cada sinal, a cada pista, a cada palpite? Talento do escritor que com igual persistência, em paralelo, viaja pelos obscuros recantos da alma humana? Une-os, afinal, a curiosidade voraz, a perseguição compulsiva de sentido para a vida e para a morte. Poderão, pois, ser para ambos as sábias palavras de Sofia: «Se alguma dúvida, racional ou não, uma intuição, um palpite te faz remoer a questão, tornas-te obsessivo, um perseguidor compulsivo do que falta, até encontrares uma resposta que te seja satisfatória, mesmo que não o seja para os outros» (p.160).

Dois acontecimentos-limite, separados no tempo e no espaço, ligam o fio da narrativa, ou são ligados pela investigação de Júlio Reis: a tentativa de assassinato de Mário Freitas, no Algarve, na actualidade; e a morte acidental de Rita Maia, em Coimbra, em 1970. Pelo meio, uma vasta galeria de personagens, de episódios, de ambientes, se agrupam em torno de dois triângulos estruturantes: o triângulo espácio-temporal formado por Aveiro-Coimbra-Algarve; e o triângulo amoroso Mário-Luís-Elisa, que o destino juntou «no mesmo caldeirão como se se desenhasse uma teia, o emaranhado de uma rede, um aperto de jibóia» (p.120).

Aveiro é a infância. Tempo mítico de que só se pode falar através dos sons e dos cheiros primordiais, e de uma paleta de cores tão viva e luminosa, que o pântano verde onde se afoga a vida, jamais o contaminará. Coimbra, a juventude, espaço e tempo de todas as iniciações e aprendizagens. Cidade sem muros nem ameias (do saudoso Zeca), cidade fulgorosa e limpa, a Coimbra já de angústia, mas ainda festiva, da excitação da audácia, do gosto do risco a temperar e a selar a amizade. Afinal, «éramos jovens, e na juventude os pequenos negócios, as pequenas concessões, as pequenas misérias não conseguem inquinar a alma lisa, isenta de cicatrizes» (p.49), escreve Mário para Luís dois dos vértices do triângulo, referindo-se precisamente a Elisa, o terceiro.

Estavam todos do mesmo lado, é certo, mas não da mesma maneira. A militância política tinha vários degraus, e os últimos exigiam coragem e heroicidade suplementares. E, apesar de quase insensível na altura, essa diferença era já um invisível rio subterrâneo que na idade adulta haveria de engrossar.

Afinal, já em Coimbra existia Luís, o do instinto predador e alma céptica, Elisa, condenada a sucumbir à voragem do carrossel social e às espessura das barreiras sociais (apesar do carácter generoso e impulsivo da paixão), Rita, e «o cheiro da traição, a mancha verde, as maçãs podres, o ambiente de suspeição» (p.78).

Algarve, cenário em que a plenitude da paisagem agrava a solidão, é o tempo da idade adulta, atravessado já pela asa da morte. É também num outro registo, o retrato de um presente de deceptividade e desencanto, requiem por tantos companheiros e tantos ideais desbotados pela vida, pela vidinha, ou pela vidraça. Alguns morreram, outros estão mortos sem o saber, e Mário, o sobrevivente, evoca-os e, de certa maneira resgata-os, porque aprendeu que «a amizade tinha razões complexas, não completamente compreensíveis, e por vezes paradoxais, que persistiam no tempo e resistiam a um desequilíbrio no balanço racional de virtudes e defeitos. Havia um tribunal afectivo que absolvia o erro e o integrava na tolerância de um sentimento prevalecente e favorável» (p.113).

Este é, pois, um belíssimo livro pessoal sobre a amizade. Não idealizada, mas vivida, sofrida, com todas as contradições, vicissitudes, encontros e desencontros, quase traições, de que, misteriosamente, ela é feita. E sendo um livro pessoal (não direi autobiográfico, porque todos o são afinal!), é também um livro colectivo em co-autoria secreta de uma multidão de anónimos, que pertencem à mesma geração do Jorge Seabra. Vivos ou reconvertidos, perdidos ou mortos, todos eles cabem, afinal, nos versos de Sofia: «Tive amigos que morriam, amigos que partiam. / Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.»

Jorge Seabra (2007), O Cão Andaluz. Santa Maria da Feira: Calendário de Letras. 262 pp. [ISBN: 978-972-8985-03-5]

 

Idioma
Português
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